Atirador abre fogo em redação de jornal nos EUA

Um ataque a tiros deixou pelo menos cinco mortos e outros dois feridos na redação do jornal “Capital Gazette“, em Annapolis, capital do estado de Maryland, nos EUA, durante a tarde desta quinta-feira. Segundo a polícia local, o autor do crime foi preso e submetido a interrogatório. Autoridades vasculham em busca de possíveis explosivos e afirmaram que o atirador — que processara o jornal em 2012 alegando difamação — teria carregado uma bomba não detonada. O episódio foi o 195º ataque a tiros em massa no país somente em 2018, que já somam 256 mortos, segundo o site “Mass Shooting Tracker”.

— Foi um ataque direcionado — afirmou o vice-chefe da polícia local, William Krampf. — O atirador procurou por suas vítimas enquanto andava pelo local.

O diário teria recebido ameaças no mesmo dia, segundo policiais, que não esclareceram se elas tinham relação direta com o massacre.

Um estagiário do jornal — pertencente ao grupo de mídia do diário “Baltimore Sun” e a meia hora de Washington — relatou numa publicação do Twitter que havia um atirador no local e pediu socorro: “Por favor nos ajudem”.

O jornalista Phil Davis, repórter de polícia e Justiça da publicação, também usou o Twitter para relatar o que acontecia. Em poucos caracteres, ele transmitiu o medo de se ver preso em um ambiente atacado por um homem armado. Segundo Davis, o atirador entrou na redação da “Gazette” e começou a disparar indiscriminadamente.

“Um homem atirou em várias pessoas no meu escritório (…) O atirador disparou contra uma porta de vidro em direção à redação e abriu fogo contra vários empregados. Não posso dizer muito até agora e não quero declarar ninguém morto, mas é grave”, disse ele em duas mensagens. “Não há nada mais tenebroso do que ouvir várias pessoas serem baleadas enquanto você está debaixo da sua mesa e então ouvir o atirador recarregando.”

AUTOR DE DISPAROS JÁ TINHA PROCESSADO JORNAL E MUTILOU DEDOS

Imagens exibidas na rede CNN mostram pessoas sendo retiradas do local, enquanto autoridades faziam buscas dentro do prédio onde aconteceu o crime. A repórteres, o policial Ryan Frashure disse que agentes de segurança inspecionavam o local para garantir que não houvesse bombas nem qualquer outro tipo de ameaça.

— É loucura. Você vê essas coisas no noticiário, mas nunca pensa que acontecerão com você — relatou Karen Burd, que trabalha há somente quatro dias num escritório de advocacia tributária dentro do prédio.

No ataque, o atirador usava uma mochila e uma espingarda. Também tinha uma bomba que não foi detonada. Ele foi encontrado escondido embaixo de uma mesa já sem a arma, segundo o chefe executivo do condado local, Steve Schuh.

Preso após uma rápida resposta policial, o atirador não carregava documentos de identificação. Ele não estaria cooperando com a polícia e teria deliberadamente mutilado as pontas dos dedos para não ser identificado por digitais e precisou passar por um software de reconhecimento facial, de acordo com fontes ouvidas pela rede de TV. Autoridades já estão investigando sua casa, informou a rede NBC.

Segundo a NBC News, o suspeito foi identificado como Jarrod Ramos. Homem branco de 38 anos de idade e morador local, ele já tinha processado o jornal em 2012 por difamação, mas perdeu o processo.

O governador do estado de Maryland, Larry Hogan, escreveu no Twitter: “Absolutamente devastado ao saber desta tragédia em Annapolis. Por favor, respeitem todos os alertas e mantenham-se longe da área. Rezando por todos que estavam na cena e pela nossa comunidade”.

Por precaução, departamentos de polícia em Baltimore e também em Nova York enviaram policiais contraterroristas a sedes de veículos de comunicação como precaução. A prática é de praxe na polícia nova-iorquina. O presidente Donald Trump também foi avisado e enviou condolências aos envolvidos e às famílias e colegas das vítimas.

O “Capital”, como é apelidado popularmente, tinha em 2014 uma circulação diária em torno dos 30 mil exemplares. Fundado em 1884, foi comprado pelo grupo de mídia do “Baltimore Sun”, passando de jornal vespertino para matutino.

Chocado com o ataque, o editor Jimmy DeButts exaltou o trabalho do jornal.

“Não há 40 horas semanais, nem grandes salários — apenas a paixão por contar histórias de nossa comunidade”, escreveu DeButts. “Continuamos fazendo mais com menos. Encontramos maneiras de cobrir esportes no ensino médio, notícias de última hora, aumentos de impostos, orçamentos escolares e entretenimento local. Nós estamos aqui em tempos de tragédia. Fazemos o nosso melhor para compartilhar as histórias de pessoas que tornam nossa comunidade melhor. Por favor, entendam, fazemos tudo isso para servir a nossa comunidade”, acrescentou. “Tentamos expor a corrupção. Lutamos para obter acesso a registros públicos e trazer à luz o funcionamento interno do governo, apesar dos grandes obstáculos colocados em nosso caminho. Os repórteres e editores dão tudo de si para descobrir a verdade. Essa é a nossa missão. Sempre será.”

O presidente da Assembleia Legislativa de Maryland, Michael Busch, tratou o jornal como a “voz da comunidade”.

— Ao longo dos anos, muitas destas pessoas se tornaram amigas. Fazem seu trabalho, fazemos o nosso, e temos respeito por elas. Muitos bons escritores vieram de lá.

Informações de O Globo

Miranda Ner Vieira
Jornalista

Local do ataque